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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Estado incapaz de organizar uma cadeia produtiva



Não precisa ser nenhuma especialista em agronegócio para concluir o que está por trás dessa crise no consumo do açaí no estado do Acre, especialmente em Feijó, a terra do fruto roxo. A incapacidade do atual governo na organização de cadeias produtivas.

Enquanto por aqui ainda se discute o consumo com ou sem a presença do agente causador da Doença de Chagas, no Pará – maior produtor nacional – o desenvolvimento de novas espécies de Açaí é uma estratégia de governo junto com a Embrapa voltada para plantação de larga escala e a ampliação do atendimento ao mercado externo. Países como Estados Unidos e Japão são os maiores consumidores. Ou seja, estão dez passos à frente.

Em 2013, o governo do Acre até tentou incentivar a produção através do Projeto Açaí de Feijó, mas esqueceu que uma cadeia produtiva é um conjunto de etapas consecutivas e sua organização não se resume apenas na distribuição de mudas, como aconteceu. Tanto é que, das 400 famílias que deveriam estar inseridas na estratégia, pouco mais de 200 sobrevivem enfrentando sérias dificuldades. Escoamento, assistência técnica, são alguns dos itens lembrados.

A técnica do “branqueamento” que o secretário de saúde Gemil Júnior convocou uma coletiva para falar, é ensinada há décadas como a saída mais econômica e viável para evitar a contaminação pelo agente causador da Doença de Chagas. Mas como nesse governo tudo só acontece na pressão, foi preciso uma postagem no facebook viralizar e se tornar em uma manchete de jornal para que IDAF, Vigilância Sanitária, Secretaria de Agricultura e outros atores surgissem “preocupados” com a saúde da população. Tão preocupados que recomendaram o consumo do açaí a olho nú, sem que saibamos sequer qual a procedência. Sem código de barras, ao Deus dará, como diz o matuto mateiro.

Para se ter a ideia do descaso ou da ausência do estado neste caso, não existe sequer uma legislação vigente que regulamente a produção artesanal do açaí. O ponto chave da organização de qualquer cadeia produtiva é a industrialização. No Acre de uma meia dúzia de agroindústrias na área de frutas, cinco são cadastradas no Ministério da Agricultura, a de Feijó, enfrenta a burocracia para conseguir se regulamentar.

Tal atitude parece mesmo com a falida política de industrialização do atual governo, incapaz durante todos esses anos de desenvolver uma marca regional, sem falar nos avanços tecnológicos que o mercado de Açaí em expansão requer. Continuamos assistindo o crescimento da demanda interna e externa, da exportação, a diversidade de produtos e derivados sendo mais uma oportunidade de negócio ambientalmente correto nos demais estados da Amazônia.

Vai uma dica para os secretários do IDAF e da Secretaria de Agricultura: saiam um pouco mais de dentro dos seus gabinetes, vão conhecer de perto a realidade econômica do estado. A falta de conhecimento por parte das comunidades que produzem o açaí de forma artesanal, acaba desestimulando a adoção de práticas sustentáveis de exploração da matéria-prima, bem como de medidas que promovam o aumento da produção e da qualidade dos frutos.


Isso não é nenhuma novidade para um estado que não tem o que comemorar quando o assunto é parceria público-privada. 

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