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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

No Seringal Bom Sossego



Continuando a relatar a nossa viagem pelo rio Azul posso afirmar que difícil não foi atar a rede com cortinado contra carapanãs da malária, com ajuda do amigo Ismael Medeiros essa foi das tarefas mais fáceis. O sol sumiu rápido por detrás das matas e a noite se apresentou com seus mistérios no meio da floresta. Desistimos da fogueira no alto do barranco e ficamos feitos bicho de ruma dentro da balieira aproveitando dois bicos de luzes com energia gerada a motor.

O jantar foi leve. O cardápio feito pelo Danga – chefe de cozinha – incluía bolacha, frutas e café com leite.

Mas como ia dizendo, difícil mesmo foi deixar de olhar o céu apinhado de estrelas. Fazia tempo que não apreciava a noite com todo o seu esplendor. A presença distante das estrelas me fazia sentir um astrônomo.

Pouco a pouco, cada um foi se calando e o silêncio era quebrado apenas pela zoada do gerador desligado somente as 22 horas. A ficha caiu, estava no meio da floresta. As horas que faltavam para o amanhecer do dia me davam pânico. Desligado do mundo, sem celular, sem internet, sem redes sociais, o jeito era procurar a rede e compartilhar a solidão com o pensamento.

No meio da noite, um cachorro faminto quase me mata de susto ao subir em cima do forno de fazer farinha em busca de algum alimento. Por um instante, pensei que seria atacado por um bicho da mata. Que sensação!

Mais algumas horas acordado, lembranças de casa, de minha filha, minha esposa, meus cachorros, aquilo parecia me acalentar e servir de colo para mais uma adormecida. O dia amanheceu.


A dona da casa, dona Beliza, carregava com a filha baldes com água. Era a certeza de que logo mais teríamos um café quentinho. Da casa de farinha onde passei a noite, avistava a rede de cor amarela do senador Gladson Cameli atada do lado de fora da escola municipal José Sena. Ele ainda dormia.


Quem não dormia eram as crianças do local. Acreditem, em pleno domingo, nas primeiras horas da manhã eu dava-lhes um flagrante e registrava uma cena inusitada: um banho nas águas geladas do rio Azul. A natureza é mesma perfeita.

O susto da noite era compensado com um porco do mato criado com estimação que aceitou minhas carícias. Não tinha muito o que fazer até a hora da primeira reunião. 

O café da manhã no barco foi ao lado da gestora de projetos e convênios do município de Cruzeiro do Sul, Wilsilene Gadelha. Uma farofa de charque com ovos e café com leite.

As pequenas embarcações vindas da colocação “Queimadas” ancoravam às margens do rio. Eram os primeiros moradores 
que subiam o barranco ao
encontro do senador Gladson Cameli. 

Outros personagens surgiam pelos varadouros por dentro das matas. O quórum ia se formando.

O senador desceu até a balieira para tomar café junto com a gente. Cada um ia se arrumando como podia. O gostoso do início do segundo dia era a cura do estresse. 

Mesmo com uma viagem perigosa, o desgaste de horas dentro de uma voadeira e uma noite mal dormida, todos estavam dispostos e revigorados. 

Era hora de ouvir as comunidades. História que eu continuo contando a seguir.






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