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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O mundo dos delinquentes



Certamente a aparente frieza e ausência de limites nos dois crimes que ocorreram na Região do Antimary – no meio da floresta amazônica – e na cidade do Bujari, no Acre, nos espantam. A sociedade viveu a partir da última sexta-feira 13, uma sequência de homicídios, desde os atentados à França, que desenrolaram-se dramaticamente em nosso cotidiano.

A chacina cometida contra Lucimar Bezerra, de 33 anos, dentro da Delegacia de Polícia Civil, mostra a incapacidade do nosso sistema de garantir segurança de um preso, mas também ilustra o ódio extremo ao outro, a desumanização. Quanto vale uma vida?

O momento é de profunda reflexão.
Fico imaginando como serão os próximos dias das centenas de famílias do Bujari, uma cidade até então conhecida pelo clima pacato. Muitos são os argumentos, várias foram as propostas apresentadas nas redes sociais, pouco, porém se falou, que tudo isso é reflexo do nosso cotidiano.

Ou será que querem empurrar de goela abaixo que existe diferença entre o gesto de um assassino como Lucimar, a ação dos que entraram na delegacia para matá-lo e o frequente desvio de grandes somas de dinheiro público por cidadãos “acima de qualquer suspeita”?

O dinheiro desviado pela corrupção falta na educação e no empoderamento das comunidades. Milhares de outras pequenas barbáries acontecem no dia-dia. Como diz (Costa, J.F. 1999:5-3) no Brasil também tornou-se "(...) uma forma corriqueira de levar ao extremo o jargão leviano tudo é mercadoria".

Assim, segundo o autor, a violência presente na realidade brasileira articula-se com os efeitos perversos do processo de mercantilização capitalista levado ao extremo, que destrói qualquer valor ou norma social não relacionado com a ideologia do lucro fácil e da busca da satisfação imediata do desejo de consumir.

O autor segue narrando que “os jovens integrantes das gangues matam e roubam, conforme testemunhas de seus crimes, para ostentar carros, motos e roupas. Mas o desejo de lucro, não importa o método utilizado, também está presente entre aqueles que roubam em benefício próprio o dinheiro público”.

E tem razão, sejam os membros das gangues, políticos ou empresários corruptos, todos perseguem o dinheiro para usufruir as delícias do consumo alardeadas pela nossa sociedade.

Mas voltando ao tema inicial, o ódio ao próximo revelado pelo rito sanguinário com que Lucimar supostamente matou a jovem Jardineis da Silva, de 25 anos, e a filha da moça, um bebê de apenas seis meses de idade, ele foi produto do meio, era um que estava imerso, em uma cultura “narcísica” da violência que se nutre da decadência da família, do descrédito social, da ausência da moral e ética. Ele seguiu a cultura da delinquência.

Qualquer um que siga esse caminho, e isso vale para os que entraram na Delegacia e tiraram a vida de Lucimar, não aceita limites e tem um profundo desprezo pela vida de outra pessoa. Como diz Costa, J.F. (1989:134-5), “considera-se acima da lei e desafiando, de forma grotesca, todos aqueles que não queiram converter-se em apêndice de sua onipotência".


Esse momento do Brasil vai entrar para a história. Nos defrontamos com crimes que refletem a sociedade e o estado brasileiro.

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